quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A cabeça vermelha, inchada, encarava o homem.
As ideias nebulosas pressionavam aquele cárcere
Onde há muito se trancafiara.
Não distinguia mais a dor
Tudo que podia enxergar era aquela cabeça.
Mas que cabeça era aquela, afinal?


Não, não era a cabeça de vinte anos atrás
Que carregava o jovem rosto inspirado em ideais determinados
Não era a mesma cabeça que,
Por se apaixonar,
Carregou, mesmo que uma única vez,
A expressão de liberdade em um rosto enamorado


Aquela cabeça era, por fim,
A cabeça de um homem
Um homem maduro, criado para a sociedade
Pela sociedade.
Era a cabeça de um homem crescido
Carregando o rosto vermelho de um marido sério


Era a cabeça sem feição
Sem afeição
Mas dentro da cabeça existiu um jovem
Que aos poucos se rebelou, gritou, esperneou
Mas a cabeça do homem não o quis mais
Não mais pertencia o jovem à cabeça


O jovem se foi, deixando a cabeça
E os ideais, os amores, as dores
E tudo o mais
E ficou o homem, dentro da cabeça vermelha e inchada
Refletida em um espelho sujo num banheiro citadino.

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